Entrevista: Paulo César Moreira comenta a corrupção


Entrevistamos Paulo César Moreira, intelectual e sociólogo brasileiro. Paulo César é professor universitário, além de colaborar com o Projeto Transformar. Milita politicamente em prol de 10% do PIB para a educação, pela moralização das empresas estatais, entre outros. Defende a intervenção do Estado na economia, com maior atenção às classes marginalizadas.

Prezado Paulo César, como você define "corrupção"?

Creio que, conforme a visão da população em geral, corrupção não se restringe ao tipo penal disposto no Código Penal. Externa-se, em sentido lato, o corromper, o apodrecer, o fétido que se instaura nas instituições. Desse modo, abrange desde a "caixinha" para o guarda, a desonestidade ao indicar um incapaz para um cargo comissionado, a assunção de um cargo sem o interesse em fazer o melhor para a população, até o peculato, o furto, o estrito desvio de verbas públicas.

Como a sociedade, em sua configuração, interfere para a incidência de corrupção?

De diversas maneiras. Pela leniência, pela displicência e, sobretudo, pela valorização. No caso brasileiro, como exemplo, pode-se notar a valorização material como sobreposta à valorização moral. Tudo começa quando o sujeito é valorizado pelos bens que tem, não por sua conduta pregressa. Quando se conhece um "figurão", ele é imediatamente valorizado, em geral, pelos bens que apresenta, sem que se questione a origem. Este é, entre outros, um grande estímulo.

Como pode isso ser transformado?

Mediante a conscientização da população, pela infusão de valores morais, éticos, coletivos e civilizacionais. O imediatismo e o materialismo consumista desprovido de consciência social são "ovos da serpente" do caos e da indiferença. De outro modo, uma população atuante pode "mandar a mensagem" aos corruptos de que seus atos não sairão impunes, bem como que não serão jamais esquecidos. Assim, pensarão duas vezes, pois terão muito mais a perder.

A corrupção, na política, é restrita a partidos?

Não. Conforme índices políticos, pesquisas sobre políticos cassados, quantificações de verbas desviadas, entre outros, a corrupção é extremamente endêmica e generalizada no Estado brasileiro, não se restringindo a um ou outro partido. No entanto, pode-se notar uma maior "ousadia" corrupta em certos partidos, nos quais a gravidade da corrupção seria aparentemente maior.

A corrupção no Brasil é mais acentuada que em outros países?

Conforme índices da Transparência Internacional, a corrupção no Brasil é considerada elevada. Contudo, tais índices constatam a "percepção" da corrupção, sendo relativamente imprecisos. De todo modo, é patente o estado deteriorado da probidade e da moralidade na Administração brasileira, por diversas razões e pela constatação mesma dos serviços prestados pelo Estado quando comparados aos valores que adentram os cofres públicos pelos impostos, taxas e pelos lucros das empresas estatais.

Quais os efeitos da corrupção em uma sociedade?

Deterioram-se os valores sociais, a união, a confiança, a eficiência. O Estado perde sua legitimidade, os vínculos políticos perdem a realidade. O discurso político torna-se vazio, imberbe, falso, tal como um simulacro, um teatro. Planejam-se ações, mas a corrupção desvia as verbas, o foco e o esforço laboral. Assim, discute-se o nada. O cidadão passa a descrer dos sistemas. Cria-se, entre outros, um "niilismo" político.

Como a corrupção pode deteriorar o Estado e a vida pública?
  
Perdem-se os sistemas estatais, a engenharia de estabilidade, os freios e contrapesos. A regra do maior capital passa a ser dominante. Agentes corrompem-se e perdem a noção de seu valor para a coletividade. Nocauteia-se a Constituição. Olvida-se a obrigação moral para com os cidadãos. Na medida em que os conchavos, os conluios e as máfias passam a dominar, a lei do mais forte - o qual não é o Estado - faz-se presente. Nisto, fica-se a um passo da ditadura, da demagogia, da oclocracia, do caos e do Nada.
  
Qual é o papel do cidadão comum nesta luta?

O cidadão não pode se omitir. O preço da honestidade, assim como o da liberdade, é a constante vigilância. Deve se informar, debater, comparecer a atos políticos e públicos, conscientizar seus próximos a respeito da importância da probidade, entre outros. A internet é um meio bastante razoável para isso, pois permite que se atinja muitas pessoas de forma rápida e eficiente. Páginas no Facebook, canais no Youtube são meios interessantes. São meios mais baratos e muito mais eficientes que aqueles à disposição na época de minha juventude. Organizações Não-Governamentais e Movimentos Sociais também são um caminho razoável. 
  As entrevistas são, por ora, disponibilizadas no intuito de enriquecer e majorar as cognições e materiais para o debate público a respeito da corrupção. A transcrição das mesmas não implica responsabilidade por parte de nosso movimento, tampouco adesão parcial ou integral às ideologias e propostas, pessoas ou pontuais, aventadas pelos autores.

Divulgação no Facebook: http://www.facebook.com/photo.php?fbid=360194450759496&set=a.257980104314265.49913.254329351346007&type=3&src=http%3A%2F%2Fsphotos-c.ak.fbcdn.net%2Fhphotos-ak-ash3%2F541914_360194450759496_732608129_n.jpg&size=319%2C239
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